O florescente universo “Alien”, com seu mais recente capítulo “Alien: Earth”, adentra cenários futuros especulativos, apresentando uma narrativa envolvente ambientada em 2120. Esta prequela, que antecede o filme original de 1979 em dois anos, não apenas explora os temas estabelecidos de horror e ficção científica da franquia, mas também mergulha em um conceito de ficção científica profundamente intrigante: a transferência da consciência humana. A série postula uma Terra dominada por cinco grandes corporações, com foco central na Prodigy, uma empresa liderada pelo prodígio e excêntrico bilionário Boy Kavalier. O ambicioso projeto de Kavalier envolve um revolucionário “processo Híbrido”, permitindo a transferência da consciência humana para corpos sintéticos, um conceito que, embora fictício, ressoa com os avanços e discussões atuais em inteligência artificial e neurociência.
No centro das operações da Prodigy está a iniciativa de Kavalier de transferir a consciência de crianças com doenças terminais para corpos sintéticos sem idade. Este método é supostamente baseado na crença de que a mente de uma criança possui maior maleabilidade. Este arco narrativo espelha o interesse do mundo real em tecnologias de upload mental. Empresas, incluindo aquelas apoiadas por figuras proeminentes como o CEO da OpenAI, Sam Altman, estão explorando a possibilidade de criar backups de mentes humanas, com alguns expressando otimismo de que tal feito poderia ser alcançado em vida. O rápido progresso em inteligência artificial e campos relacionados levanta questões sobre a viabilidade do futuro transumanista retratado em “Alien: Earth”, levando a um exame de quão perto a humanidade está de tal tecnologia transformadora.
No entanto, especialistas em IA e neurociência sugerem que replicar os métodos de Kavalier, como retratado na série, permanece uma perspectiva distante, potencialmente décadas ou até séculos no futuro. O Dr. Hidenori Tanaka, especialista em IA e física do Center for Brain Science da Universidade de Harvard, explica que tal processo exigiria um mapeamento intrincado dos bilhões de neurônios interconectados do cérebro, um feito atualmente além das capacidades científicas, com pesquisas no nível de moscas-das-frutas. Embora a transferência direta de consciência permaneça elusiva, a IA oferece um caminho paralelo. Tanaka sugere que, ao imitar processos cognitivos humanos — como padrões de fala, classificação de imagens e comportamento — os sistemas de IA estão começando a exibir padrões neurais comparáveis aos encontrados no cérebro humano. Esse avanço poderia teoricamente levar à criação de uma cópia de uma mente, em vez de uma transferência direta.
O conceito de criar uma cópia ou clone de uma mente, mesmo através da IA, introduz profundas questões filosóficas e éticas. O Professor Sylvester Kaczmarek, especialista em IA com foco no setor espacial, destaca a potencial distinção entre uma consciência carregada e o eu original, questionando a própria definição de “eu”. A Professora Crystal L’Hôte, diretora de filosofia e ética do St. Michael’s College, ecoa essas preocupações, ponderando sobre a continuidade da identidade. Ela questiona se uma consciência transferida para um novo corpo manteria seus traços de personalidade únicos, peculiaridades e interesses, ou se seria meramente uma simulação. L’Hôte enfatiza que, embora a consciência possa ser computacionalmente modelada e simulada, não há evidências atuais que sugiram que tal simulação constitua consciência real, potencialmente levando a uma perda da experiência original.
Um obstáculo fundamental para alcançar a transferência de consciência reside na compreensão incompleta da própria consciência. Marvin Kopka, pesquisador de IA-humano na Technische Universität Berlin, identifica a definição e a medição da consciência como o principal obstáculo. L’Hôte elabora ainda mais que a consciência não é meramente os efeitos ou funções observáveis do cérebro, mas uma experiência subjetiva intrínseca. Ela postula que a consciência é fundamentalmente sobre o aspecto qualitativo da experiência — a sensação de saborear suco de laranja, sentir o sol ou reconhecer um ente querido — que desafia a definição puramente funcional ou computacional.
Além dos desafios científicos e filosóficos, surgem preocupações significativas em relação à distribuição equitativa de tal tecnologia avançada. A acessibilidade atual de ferramentas de IA de alto nível é frequentemente limitada pelo custo, tornando-as exclusivas para um segmento privilegiado da população. Se a tecnologia de transferência mental se tornasse realidade, levanta a questão crítica de saber se ela seria universalmente acessível ou criaria uma “divisão de imortalidade digital”, como descrito por Kaczmarek, onde apenas os ricos e a elite social poderiam pagá-la, deixando os demais para trás.
A implementação da tecnologia de transferência mente-corpo também exigiria estruturas abrangentes para consentimento, governança, segurança cibernética e privacidade de dados. A perspectiva de corpos sintéticos serem submetidos a publicidade direcionada, modelos de assinatura ou mineração de dados evoca cenários distópicos reminiscentes de narrativas de ficção científica, sublinhando a necessidade de medidas regulatórias robustas.
Em última análise, o cronograma para alcançar a transferência da consciência humana permanece altamente especulativo. Rohit Patel, diretor do Meta Superintelligence Labs, enfatiza a natureza imprevisível do progresso tecnológico, observando que avanços frequentemente surgem de direções imprevistas. Ele sugere que futuros avanços podem não necessariamente derivar dos atuais paradigmas de IA, mas podem envolver paradigmas científicos inteiramente novos, como sistemas quânticos. Patel postula que o caminho atual de progresso pode atingir seus limites, levando a novos ramos de inovação. Ele conclui que qualquer meio que eventualmente facilite tal transferência provavelmente ainda não foi inventado.